Enxurrada de reclamações na UPA Central

Enxurrada de reclamações na UPA Central

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Dia 17 de outubro de 2016. Mais um dia de Ouvidoria Popular na Upa Central de Santos. Mais um dia de histórias que mostram o drama de quem precisa de saúde pública e não tem o atendimento adequado, como manda a Constituição.

A UPA Central, terceirizada para uma Organização Social, foi usada como um dos grandes troféus que o governo quis mostrar para a opinião pública. Parecia muito reluzente, mas o brilho era falso! Olhando mais de perto, vê-se que a UPA, “símbolo da humanização” em saúde tão propagandeado, é um engodo. A unidade é como um troféu de latão: brilha no começo, mas com o tempo começa a oxidar e enferrujar.

No último dia 17, Antonio Rodrigues acompanhou uma paciente de Guarujá até a unidade santista, na esperança de encontrar um atendimento melhor. Porém, se decepcionou. A moça, que estava passando mal, não foi atendida na emergência, como ele esperava. O local estava lotado e a paciente, sem cadeira para sentar, ficou na escadaria por vários minutos.

Outros pacientes tiveram dificuldades. A Ouvidoria acompanhou o martírio dos que chegavam sem condições de andar e precisaram ser carregados por falta de cadeira de rodas. Acompanhantes disputavam a única cadeira disponível. Flagramos um munícipe esperando uma paciente desocupar o equipamento para poder garantir a remoção de seu familiar.

Confira os depoimentos:

Elias de Oliveira, aposentado

“A UPA não tem cadeira de rodas. O segurança falou que deveria ter 10, mas roubaram 9. Disseram que só tem uma e que estão aguardando 5 que nunca chegam.

Trouxe o meu irmão, que é deficiente está com começo de câncer na garganta. Ele não se locomove e tivemos de levar no braço. A saúde não tem jeito para progredir. Isso é lavagem de dinheiro. Isso não é investimento. Tão lavando dinheiro com a empresa privada. Quem faz privatização é porque está ganhando muito em cima disso. Não faz nada de graça; ganha 10% de comissão do valor total do contrato. É uma UPA Central, de nome, e cheia de gente reclamando. Só fazer prédio bonito não adianta. Tem que colocar funcionário. Terceirizar sai muito mais caro.”

Alexandro Guimarães, motorista

“Dia 10 de outubro eu vim aqui, pois machuquei o braço. Cheguei era 17h30 e saí meia-noite e meia. Ontem voltei para tirar a tala e mostrar que estava um pouquinho incha- do. O médico colocou outra tala. Mas na hora de me dar o atestado, colocou errada a data. Fui entregar na empresa e vi o erro.Votei aqui na UPA e a moça falou que não sabe informar o dia do plantão daquele médico. Agora tenho que ficar ligando todos os dias para cá para saber quando ele estará, pois só ele pode arrumar a situação. Pra mim essa UPA não mudou nada, continua a mesma coisa. Só tá uma coisa mais bonitinha Quiseram terceirizar e o atendimento continua horrível. Se entrar lá dentro vai ver como está cheio de gente. É muito demorado.”

Marcos Ivan da Silva, portuário

“Meu filho bateu a cabeça na escada. Minha filha trouxe para UPA e disse que o enfermeiro pegou ele com brutalidade, com má vontade. As faxineiras foram limpar o quarto e ficaram conversando. Enquanto isso, três pacientes do lado de fora, inclusive meu filho, ficaram em macas, esperando um tempão para entrar nos leitos. Faltam pessoas mais preparadas. Não adianta ter esse prédio bonito e depois não ser nada disso que a gente pensou que ia ser.“

Reginaldo Dorta, eletricista industrial

“Eu já venho aqui há uns 20 dias, com zunido no ouvi- do. Passei por um médico, ele me receitou uns remédios. Tomei todos e voltei aqui dias depois com o mesmo problema. Não adiantou nada. Passei em outro médico, que me passou outros remédios. Tomei até ontem e terminou, mas não resolveu. Me deu a receita para fazer lavagem, mas aqui não tem.

Sempre está muito cheio aqui. Teve uma vez que cheguei 8 horas e sai 3 da tarde. Hoje vim para reclamar, pois o zunido continua. Desisti. Nã quis mais ser atendido. Pelo que estou vendo, a empresa não está sendo idônea”.

Robson Correia, desempregado

“Minha irmã está com manchas vermelhas no corpo e dor no coração. Ela vem aqui direto e ninguém sabe qual o problema dela. Das outras vezes foi a mesma coisa: demora. Estes dias trouxe o meu sobrinho que tem 13 anos e a sobrinha que tem 11. Entrei nas duas salas da pediatria e não tinha ninguém. E já estava mais de uma hora esperando na fila. O pessoal é tratado como cachorro vira-lata. Jogam no canto e deixam lá esquecido. Eu me sinto desse jeito. Tem uma mulher que desde a hora que eu cheguei está passando mal na escada. E vê se eles atendem? Não passam ela na emergência. Você reclama e eles falam que tem que esperar, que o médico está almoçando, que não chegou.“

Maria Gilda Trindade, desempregada

“Eu cheguei com pé quebrado e tive dificuldades. A sorte é que um rapaz me deu uma cadeira de plástico para sentar. Aí esperei minha filha chegar para me ajudar a subir. Subi pulando, fiz a ficha pulando, fui no ortopedista pulando, fui até o Raio X pulando. Eles vêm a pessoa pulando e ela continua pulando. Tem gente que chega mal, não consegue nem andar. Deveria ter umas cinco, seis cadeiras ou mais. O atendimento também tá meio demorado. Eles tinham que ser mais organizados.”

Josefa Vasconcelos, aposentada

“Material físico, tem. O que falta é organização. Falta um sistema melhor de atendimento. Um pessoal mais capacitado. As enfermeiras demoram. Também falta ambulância. Só tinha uma cadeira de rodas para descer minha mãe. E outra pessoa já está esperando desocupar para levar o pai. Tá faltando omeprazol na farmácia e faltou uma outra medicação que o médico passou. Está faltando também nas policlínicas. Omeprazol e Macrodantina faz dois meses que não tem. Omeprazol é básico.”

Flaviana Aládia Shculz

“Vim aqui na UPA no dia 5 de outubro com problema no braço e ele disse que não era nada. Como continuei com dor, voltei hoje e passei em outro médico que olhou a chapa e disse que estava quebrado. Acho que foi um erro deles. Da primeira vez já deviam ter feito tudo, gesso, imobilização, mas não. Eu continuei com dor. Acho que deveriam ter mais cuidado. Eles fazem faculdade, estudam pra isso. Isso me prejudicou bastante porque já estou sem trabalhar vários dias e agora vai demorar ainda mais para eu voltar.”

Anselmo Ivanoschi Silva, manobrista

“Comi um camarão e agora estou sentindo uma dor na boca do estômago e vomitando sangue. Fui no Crei, que não está funcionando. Apelei para o Hospital de Praia Grande e está muito cheio. Vim aqui na UPA e está lotado. Muita gente. Está tendo até briga entre pacientes. Tá difícil. Me sinto menosprezado. Aqui precisa de mais médicos e salas para atender. Eu vou desistir de esperar. Perdi o dia de serviço. As pessoas estão reclamando por- que demora mesmo.”

dl-24-10-2016

 

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