Nos últimos dias de 2025 tivemos mais um caso que demonstra o escárnio que é a terceirização da saúde para organizações sociais (OSs). Em 21 de dezembro, foi ao ar uma reportagem do Fantástico mostrando detalhes sobre um esquema que desfalcou em ao menos R$ 25 milhões da Saúde do município de Embu das Artes, em São Paulo.
Ao invés de custear atendimento digno aos moradores nos prontos-socorros municipais – três -, abastecer os PSs e também as unidades básicas com medicamentos à população e prover a manutenção dos equipamentos, o dinheiro da saúde pública de Embu, repassado primeiro pelo governo Ney Santos e depois pela gestão Hugo Prado, ambos do Republicanos, foi desviado. E pior: serviu para bancar a vida luxuosa de um empresário da organização social contratada.
A reportagem relata que a Polícia Federal prendeu no fim de novembro o empresário gaúcho Humberto Silva Baccin sob acusação de liderar o esquema para financiar uma vida de ostentação que incluía viagens internacionais, aluguel de imóveis de luxo e até pedido de casamento em Paris.
Humberto e outros empresários são gestores de hospital, em Jaguari (RS), PSs e UBSs, em Embu. Mas investigações da PF apontam para um esquema de desvio de dinheiro que começou a ser montado em 2021, quando Humberto comprou o Irdesi, o Instituto Riograndense de Desenvolvimento Social Integrado.
O Irdesi é uma organização social privada (OS) que, por regra, não pode ter lucro – recebe recurso público para fazer a gestão e manutenção de unidades de saúde.
Entre 2022 e 2025, o Irdesi recebeu R$ 340 milhões, a maior parte paga pela Prefeitura de Embu, recurso federal, segundo a PF, dinheiro da saúde que foi usado para compra de carros, artigos de luxo, viagens e aluguel de apartamentos requintados. Um dos imóveis locados foi em Balneário Camboriú (SC). Nele, Humberto passou o Réveillon. Em uma ligação, o corretor elogia a opção. “Fizesse uma baita escolha. Um aluguel desse, de frente ‘pro’ mar, é no mínimo R$ 20 a 25 mil”, diz.
Mais dinheiro bancou viagem e estadia de vários convidados do casamento de Humberto, no Nordeste. “Em algumas situações se identificou que o próprio cartão do hospital foi utilizado para pagar despesas pessoais”, diz o delegado da PF Anderson Lima. Em uma outra conversa, o empresário brinca com os gastos elevados da esposa na capital francesa. “Rapaz, esse casamento ‘tá’ saindo caro. É chocolate ‘pra’ cá, é óculos ‘pra’ lá, é bolsa de 30 ‘conto’”, ostenta.
Cruzeiros temáticos sertanejos e estadias em apartamentos também estão entre as despesas que teriam sido pagas com cartão de crédito do próprio instituto, que entre 2022 e 2025 recebeu R$ 340 milhões em recursos públicos.
Segundo a PF, o esquema também contava com contratados que não davam expediente. A própria esposa de Humberto, Maíne Baccin, que foi pedida em casamento em Paris, era uma das funcionárias fantasmas. Ela chegou a receber salário de R$ 23 mil por mês sem ter que trabalhar. A ex-mulher de Humberto Tássia Nunes também se beneficiava com o esquema. O Irdesi pagava para ela, além de salário, o aluguel de um apartamento em Balneário Camboriú.
Elas não deram entrevista. Em nota, a defesa de Tássia Nunes disse que à época que “ninguém pode ser considerado culpado antes do devido processo legal” e que “a antecipação de juízos condenatórios viola a presunção de inocência”. Também por nota, a defesa de Maíne Baccin declarou que “está realizando análise detalhada de todos os documentos e informações constantes do inquérito”. As duas foram retiradas da folha de pagamento da Irdesi por decisão da Justiça.
Esquema sofisticado
A organização criminosa desenvolveu um esquema sofisticado de desvio de recursos públicos. Somente com duas empresas de fachada, foram desviados pelo menos R$ 8 milhões. “As Empresas não existem, na verdade, estão em nome de ‘laranjas’. Essas empresas emitiam notas fiscais fictícias de serviços supostamente executados, que não prática não eram executados. E os recursos eram desviados para as mais diversas finalidades”, diz o delegado.
Em Porto Alegre, o “Fantástico” localizou o endereço de uma construtora que não existe. No local informado, em uma favela, Vila Cruzeiro do Sul, encontrou apenas pequenas casas em um beco. A empresa está registrada em nome de Valquíria Silva Nogueira. Abordada, ela confirmou ser a dona da empresa. “Tem uma construtora registrada em seu nome?”, perguntou a reportagem. “Sim”, disse ela. Indagada se é a dona, também respondeu “sim”.
Já ao ser questionada sobre que tipo de serviço presta, Valquíria se esquivou. “Não, eu não falo sem a presença de advogado”, disse. Sobre se estava envolvida em processo de serviços não realizados, ela se recusou de novo a responder e correu para casa. Uma vizinha tentou impedir a gravação e deu um tapa no celular do repórter. Na verdade, segundo a polícia, a mulher que se apresenta como dona da Valquíria Serviços era uma cozinheira contratada por Humberto.
Segundo a investigação, a construtora fantasma recebia R$ 260 mil por mês para fazer a manutenção de unidades administradas pelo Irdesi em Embu. Mas a UBS Central alagou durante uma chuva na semana anterior, mostrou o “Fantástico” em um vídeo. A reportagem foi à UBS e encontrou pacientes que não conseguiram remédios que deveriam ser distribuídos de graça. “No momento a gente ‘tá’ sem”, disse a atendente. O morador confirmou a falta do medicamento.
Procurada, a prefeitura disse que “as condutas apontadas na investigação (…) se confirmadas, são de inteira responsabilidade da organização (social) contratada”. “Quanto à falta de medicamentos (…), esclarece que a obrigação é responsabilidade da organização gestora”, afirma. Até o momento, a Justiça bloqueou 14 imóveis, 53 veículos, uma lancha e contas bancárias de 20 investigados. O prejuízo é de pelo menos R$ 25 milhões, o valor retido.
Em uma outra conversa, Humberto reclama com os sócios que só ele estava exposto com a fraude. “Todo mundo fala né ‘o lucro do Irdesi’, mas eu acho que todo sócio tem que botar o ‘CPFzinho ali, né? Vamos começar a arriscar os seus patrimônios, arriscar tomar uma cadeia, né?”, diz. Ele arriscou e foi preso, observa a reportagem. “Ele não tinha nenhum temor que fosse alcançado pela Justiça, que era um dinheiro privado e que administrava como quisesse”, diz o delegado.
O “Fantástico” diz ter procurado a defesa do dono do Irdesi, mas não houve resposta. Em Embu, o atendente de bar Vitor Rocha protestou contra o desvio na saúde. “É um absurdo. Está faltando na base, no atendimento, no remédio, dos cuidados de saúde”, diz. Ney Santos e Hugo Prado tinham a responsabilidade de fiscalizar a gestão do Irdesi. No domingo à noite, enquanto eles dançavam no palco durante show de cantor famoso, ia ao ar o “escândalo” na saúde de Embu.
Uma semana após o escândalo, a Polícia Federal divulgou que indiciou 17 pessoas por suspeita de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa ligadas ao Irdesi. Entre os indiciados estão a esposa de Humberto, Maíne Baccin, e a ex-companheira, Tássia Nunes.
Humberto Baccin segue preso no Complexo Penitenciário Ahmenon Lemos Dantas, em Várzea Grande (MT). Conforme relatório obtido pelo site G1, agentes da Secretaria de Justiça do Mato Grosso apreenderam dois celulares que, segundo a PF, eram usados por Humberto para “coagir testemunhas e interferir na instrução criminal”.
Humberto ainda é dono da Campi, outra empresa citada na investigação. Trocas de mensagens obtidas pela PF levantam suspeitas de envolvimento de um funcionário público em suposto direcionamento de licitação na Fundação de Proteção Especial (FPE), vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul.