Acusado de ser líder de OSs enquanto era secretário de Saúde, Guido Cerri processa jornalistas

Acusado de ser líder de OSs enquanto era secretário de Saúde, Guido Cerri processa jornalistas

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As estranhas conexões entre o público e o privado são mais antigas do Brasil do que andar pra frente. O ex-secretário de Saúde de Geraldo Alckmin, Giovanni Guido Cerri, é protagonista de umas das histórias que envolvem relações escusas entre a pasta que comandava e Organizações Sociais (na prática empresas disfarçadas de entidades do terceiro setor) e que ganham dinheiro dos cofres públicos.

A história foi publicada na Revista Adusp e seus jornalistas foram processados por Cerri em 2013. No último dia 25, a Revista Brasil de Fato publicou que os profissionais foram alvos de novo processo.

Segundo a Brasil de Fato, Guido Cerri entrou na Justiça com uma segunda ação, desta vez por danos morais, contra a Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) e os jornalistas Pedro Pomar, Tatiana Merlino e Débora Prado, da Revista Adusp. O processo de indenização corre na 1ª Vara Cível do Foro Regional de Pinheiros, Zona Oeste da capital paulista.

A primeira ação judicial ocorreu no âmbito criminal. A segunda ação movida tem natureza cível e, além de retomar as alegações de crime contra a honra, acusa a associação e seus profissionais por “uso desautorizado de imagem”.

Entenda o caso

Cerri, que esteve à frente da pasta entre janeiro de 2011 e agosto de 2013, foi alvo da reportagem “Empresário do setor, secretário da Saúde ‘dá as cartas’ em duas OSS”, publicada da edição 54 da publicação da entidade. Ao ler o conteúdo, achou que foi vítima de uma matéria escrita com finalidade meramente difamatória.

A investigação das repórteres revela que Cerri teria integrado o Conselho de Administração do Hospital Sírio-Libanês, ao qual se vincula a organização social (OS) de saúde Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês (IRSSL), enquanto exercia o cargo de secretário da Saúde.

Ele ainda era “presidente licenciado” da Fundação Faculdade de Medicina (FFM), também qualificada como OS. Ambas as organizações possuem contratos com a pasta, e alguns foram assinados pelo próprio secretário.

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Ao Brasil de fato, o editor da revista, Pedro Pomar, reitera que, durante o processo de apuração da reportagem, Cerri foi procurado por Débora e Tatiana para que se pronunciasse, mas não obtiveram retorno.

Para o jornalista, a abertura de um novo processo jurídico, agora envolvendo a associação, mostra uma “disposição de intimidar, amordaçar e punir eventuais vozes críticas”.

“Esse tipo de processo contra jornalistas, hoje generalizado no Brasil, é um instrumento de intimidação e de perseguição. Um verdadeiro atentado contra a liberdade de expressão. Figurões que possuem poder político e econômico não suportam ser questionados e partem para a retaliação judicial, com a finalidade de obter a prisão de jornalistas ou pesadas indenizações”, disse o editor.

A reportagem acabou tendo consequências para Cerri, que é médico radiologista. Depois da publicação ele pediu demissão ao governador. Na época, ele justificou que voltaria a se dedicar às atividades acadêmicas e científicas como diretor da Faculdade de Medicina da USP.

Em Praia Grande também temos exemplos deste conflito de interesses envolvendo a Fundação ABC, presente desde 2008 na cidade, quando assumiu a gestão do Hospital Municipal Irmã Dulce. O ex-presidente e vice-presidente da instituição, Francisco Jaimez Gago, acabou depois virando secretário de Saúde de Praia Grande e se mantém na pasta até hoje.

Negociação

Conforme a Revista Brasil de fato, o valor de reparação pedido por Cerri no processo foi fixado em R$ 200 mil, com correções inflacionárias desde maio de 2013. Além da indenização financeira, Cerri pretende que os réus sejam condenados a publicar retratação com o mesmo destaque que deram à matéria “em ao menos um jornal e uma revista indicados pelo Autor”.

Segundo a Adusp, nas audiências de conciliação da ação criminal, os advogados do ex-secretário se recusaram diversas vezes à oferta de publicação da versão do professor nas páginas da revista da entidade.

O ex-secretário se dispôs a aceitar apenas a publicação de uma retratação como matéria paga na Folha de S. Paulo, “exigência que foi considerada exorbitante até pela juíza [Aparecida Angélica Correia] do caso”, conforme nota da associação.

Agora, a Adusp reiterou que não buscará conciliação. Para Pomar, a posição demonstra que a entidade confia no rigor jornalístico da reportagem questionada pelo ex-secretário.

“A Adusp entende que havia uma clara situação de conflito de interesses, robustamente documentada, e que, portanto, não existe motivo para retratação”, afirmou.

A próxima audiência entre as partes ainda não foi agendada. Já o julgamento da ação criminal movida em 2013 será em fevereiro de 2017.

O Brasil de Fato procurou Cerri através da assessoria do Instituto de Radiologia da USP, onde leciona, que informou que o ex-secretário estava viajando a trabalho e não poderia atender à imprensa.

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