A utilização inadequada de máscaras e aventais, intubação de pacientes sem proteção correta, lentidão para diagnóstico e a baixa qualidade de equipamentos individuais (EPIs) podem ter gerado a proliferação do novo coronavírus no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), gerido pela organização social INTS.
A reportagem do jornal O Popular conversou com três profissionais de saúde que trabalham na unidade na capital goiana e eles afirmam, sob a condição de anonimato, que o serviço é marcado por problemas.
Nesta segunda (4), mostramos que o hospital passa por um surto da doença, com 132 profissionais afastados por Covid-19. Um dia depois, chegou a 160 trabalhadores adoecidos por suspeita ou confirmação da doença.
A intubação de um paciente com Covid19, sem que os profissionais soubessem do diagnóstico, pode ter sido um dos momentos de contaminação. Ele sofreu um acidente e deu entrada na unidade com falta de ar. No entanto, o sintoma é típico tanto para coronavírus como trauma no tórax, que era o caso do paciente. Mais tarde, depois de ter feito procedimento cirúrgico, ficar internado dias em uma enfermaria e em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hugo, o paciente teve agravamento e foi diagnosticado com Covid-19.
Vários profissionais que estavam na UTI com este paciente foram afastados por suspeita ou confirmação da doença. Por mais que não se saiba se ele trouxe a doença para o hospital ou se foi contaminado enquanto estava hospitalizado, um técnico em enfermagem relatou para a reportagem que este paciente foi entubado várias vezes por profissionais que usavam máscara cirúrgica.
Uma intubação de paciente com Covid-19 deve ser feita com máscara N95, que tem maior proteção contra os aerosóis, partículas finíssimas que contêm o vírus e podem ficar durante horas no ar. Além disso, uma técnica em enfermagem relatou que os profissionais ficavam sem óculos de proteção ou protetor facial, dentro do ambiente da UTI.
“Teve momento que a gente não tinha noção de quem era e quem não era Covid. O hospital é porta aberta, o motociclista se acidenta, quem vai saber se ele tem Covid ou não? Não é feito teste no momento que é admitido”, avalia o técnico em enfermagem da unidade.
Reportagem do POPULAR publicada no último sábado (2) revelou o caso de um paciente de 63 anos de Águas Lindas de Goiás, positivo para o novo coronavírus, que teve os primeiros sintomas após 15 dias internado no Hugo para uma cirurgia ortopédica. O período é um forte indício de que ele se contaminou enquanto estava hospitalizado.
Diagnóstico errado
Já uma técnica em enfermagem do Hugo conta que quando apresentou sintomas de Covid-19, recebeu atestado de suspeita de dengue. Quando voltou a trabalhar, sentiu muita falta de ar ao subir escadas no primeiro dia de retorno e só então foi feito o teste, que deu positivo para coronavírus.
Um supervisor de enfermagem ouvido pela reportagem admite que nem todos os profissionais utilizam os equipamentos de proteção de forma adequado, mas ele garante que foram repassadas orientações corretas da direção do hospital e que há um trabalho de fiscalização constante.
“É como se fosse uma escola, tem o aluno nota 10, o nota 8 e o nota 3”, exemplifica o técnico. Da mesma maneira, ele relata que nem todos obedecem às regras de distanciamento em ambientes comuns. Outra profissional de saúde relatou para a reportagem que no início da epidemia havia pouca distribuição de máscaras N95.
Apenas profissionais que tinham contato com pacientes suspeitos ou confirmados da Covid-19 tinham acesso ao equipamento que protege mais. Além disso, a profissional relata que as máscaras cirúrgicas oferecidas eram de dupla camada, ao invés de tripla. “A máscara era tão na que a gente via o batom da colega”, descreve.
Os capotes, da mesma maneira, eram de gramatura 20, sendo que o recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é a gramatura 50, com mais proteção.
Sindicatos
A presidente do Sindicato dos Médicos do Estado de Goiás (Simego) Franscine Leão diz que toda a intubação deve ser feito com máscara N95, seja paciente com coronavírus ou não. “O Hugo é um hospital de porta aberta para todos os tipos de pacientes e nós não sabemos quem são os que estão contaminados ou não. Neste momento (de pandemia) não tem diferença para entubar quanto à paramentação. Todo paciente que vai ser entubado, a equipe toda deve estar com N95. Todos do Centro de Tratamento e Terapia Intensiva (CTI) devem estar com N95”, orienta.
Franscine relata que denúncias sobre a qualidade ruim de máscaras cirúrgicas e aventais chegaram até o sindicato. Ela também conta que houve denúncias sobre a reutilização de capotes. “A gente sempre bate na tecla que a equipe toda tem de estar paramentada. Não só o médico, não só o residente. A gotícula pode ficar na superfície por dias e o aerosol no ar por horas. Quando acabou de entubar, o profissional ainda está exposto, a partícula ca suspensa”.
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde de Goiás (Sindsaúde-GO), Flaviana Alves, reforça que o uso de N95 para mais profissionais foi defendido pela entidade desde o início da pandemia. Segundo ela, não só o Hugo, como outros hospitais, dificultavam o acesso à máscara com maior proteção.
“No começo falavam: ‘se não atender paciente suspeito, vai usar máscara normal (cirúrgica). Esse pensamento ainda está um pouco generalizado em muitos locais. Como no Hugo está muito grave, todo mundo está usando máscara N95”, avalia Flaviana.
Muitos dos profissionais do Hugo trabalham em outras unidades de saúde, o que levanta a possibilidade de terem contraído a doença em outro local. O Hugo não é hospital de referência para Covid-19, os casos suspeitos e detectados são isolados no segundo andar e encaminhados para o Hospital de Campanha (HCamp), também em Goiânia.
A presidente do Sindsaúde também avalia que independente de quem trouxe a doença para dentro do hospital, o surto de Covid-19 no Hugo é sinal de uso inadequado de equipamento de proteção indiviudal. “Fica a dúvida: ‘foi paciente para trabalhador ou trabalhador para paciente?’.
Vai ficar esta dúvida no ar. Com certeza, é porque não houve uso de EPI de forma adequada. Não vou dizer que não possa ter um ou outro que se contamina, mas a forma como aconteceu a disseminação lá dentro é porque não cumpriu protocolo”.
Flaviana também relata que houve denúncias de trabalhadores sobre a qualidade ruim de máscaras e aventais.
Por meio de nota, a organização social que administra o Hugo, o Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS), informou que os treinamentos de segurança da equipe são periódicos e que está sendo feita uma busca ativa de profissional que se sinta inseguro ou que quiser ser treinado novamente. Desde a semana passada, o Hugo tornou obrigatório o uso de máscara N95, com mais proteção, para todos os profissionais que trabalham na assistência ao paciente. Também está sendo exigido uso de todos os equipamentos de proteção para profissionais que assistem pacientes em ventilação mecânica, independente se há suspeita ou não de infecção pelo vírus.
Idoso morre após ser liberado
Também no Hugo, a imprensa noticiou o caso de um idoso que morreu 4 dias após ter alta. O homem, de 77 anos, foi internado no início de abril, com falta de ar. Um teste realizado após ele deixar hospital verificou que o mesmo estava com Covid-19.
O paciente ficou internado por 26 dias. No último dia 26, ele foi liberado e retornou para casa. No entanto, na madrugada do dia 30 voltou a ter falta de ar e foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Campos Belos. No mesmo dia o quadro se agravou e ele faleceu. A causa da morte foi registrada como síndrome respiratória aguda grave.