Subcomando da Corporação estaria usando efetivo para vigiar empresas, lojas maçônicas e até igrejas. Reportagem flagrou situação no Centro após denúncia de guardas municipais
 
Engana-se quem acredita que a Guarda Municipal de Santos tem como principal função assegurar a integridade do patrimônio público. No atual governo municipal, ela tem uma segunda atribuição: guardar patrimônio privado. E, lógico, de forma disfarçada, conforme constatou o Diário do Litoral durante as últimas 48 horas, após obter informações detalhadas sobre o trabalho irregular que vem sendo realizado para empresas, pago com o dinheiro do contribuinte santista.
 
Um dos pontos constatados pela Reportagem fica na Rua Viscondessa do Embaré onde uma viatura, com dois guardas municipais, fica de prontidão 24 horas. Não há qualquer patrimônio público na via recentemente repavimentada senão imóveis particulares. Segundo informações exclusivas obtidas pelo Diário do Litoral, por guardas inconformados com a obrigação de terem de cuidar de bens particulares, a ordem é do Subcomando da Corporação, com provável anuência de superiores.
 
A atividade muda a rotina e atrapalha a ronda da Corporação. “No local (Rua Viscondessa do Embaré), os guardas são obrigados a vigiar um imóvel seminovo particular. A empresa solicitou o calçamento da rua à Prefeitura e a ‘limpeza da área’ (retirada de moradores de rua e viciados), além da instalação de uma câmera. De dia, os guardas podem utilizar o banheiro da empresa. Mas, à noite, são obrigados a ficar olhando o patrimônio sem poder até beber água”, conta um dos denunciantes.
 
Conforme informações, a ordem para resguardar patrimônios privados é dada sem documento, ‘de boca’ aos subordinados. No caso da Rua Viscondessa do Embaré, o trabalho 24 horas já perdura por 15 dias. No entanto, segundo a denúncia, é comum a utilização da Guarda para resguardar entorno de templos maçônicos, eventos sociais e políticos de pessoas ligadas à Administração e até casamentos para poucos bem relacionados.
 
“Até desfile de moda e uma ótica no Gonzaga já foram cobertos pela Guarda. Não tem nada por escrito. A exigência apenas é que guardas fiquem de dia e guarnições fiquem à noite paradas, olhando a empresa”, revela o denunciante, dizendo que já há tratativas para instalação de uma câmera do Sistema de Interno de Monitoramento da Guarda (SIM) na Rua Viscondessa do Embaré.
 
Rua Viscondessa do Embaré pode receber câmera do SIM sem ter prédio público (Foto: Carlos Ratton/DL)
Rua Viscondessa do Embaré pode receber câmera do SIM sem ter prédio público (Foto: Carlos Ratton/DL)
 
‘Limpar a área’ para empresários ficarem tranquilos
Além da vigilância, os denunciantes alertam que a Guarda Municipal vem recebendo ordens para ‘limpar as áreas’ de moradores de rua que incomodam empresários. “Não se fala em pagamento para alguém da Prefeitura. O que parece ocorrer é uma troca de favores. Alguém está ganhando com tudo isso e não são os guardas. O efetivo é apenas peça de dominó do jogo”, informaram os denunciantes, alertando que a Guarda também já foi utilizada para guardar as instalações de uma empresa de segurança na Rua Zeonor Paiva Magalhães, no Chico de Paula.
 
Durante as horas que a Reportagem levantou a situação, foram flagradas em horários diferentes — de dia e à noite — pelo menos duas viaturas placas PGK 7881 e PER 3582, na Rua Viscondessa do Embaré. Foi flagrada inclusive, no meio da tarde de ontem, a troca de guarnições no Centro. Outras viaturas também já ficaram vigiando outros terrenos particulares em Santos. Conforme informações, o Subcomando tem ligações diretas com os seguranças internos particulares das empresas, para o caso de assistência emergencial aos guardas municipais.
 
Conforme revelam os denunciantes, uma parte da guarda faz o serviço sem reclamar por medo de represálias, mas outra parte já é da opinião que a situação estaria caminhando para a insustentabilidade, pois estaria sendo desgastante para as equipes serem obrigadas a resguardar o bem particular, impedidas até de darem assistência a companheiros de farda. “Tem guarda fazendo 12 horas de trabalho no Centro da Cidade, com apenas uma hora de intervalo para almoço. É o uso do bem público e do material humano por particulares”, contam os denunciantes.
 
Artistas de rua
Outra questão que incomoda os guardas é a obrigação de abordar artistas de rua, tema de várias reportagens do DL. “Os guardas novos não têm preparo para essas abordagens e chegam a levar pessoas presas. Isso é errado. Tem que dar um freio. Tem muita coisa errada acontecendo. Vai ter uma hora que vai ocorrer algum problema grave. A Guarda faz todo tipo de serviço, menos para o que ela foi criada”, informam, alertando que o descontentamento da Guarda é muito grande, pois se não cumprir ordem o guarda é punido.
 
Prefeitura
Procurada ontem para enviar uma manifestação a respeito das denúncias envolvendo a Guarda Municipal, a Prefeitura de Santos, por intermédio da Assessoria de Imprensa, informou que tomará as providências cabíveis assim que tomar conhecimento dos fatos.

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