Ilustração: Mãos de um trabalhador idoso

Em maio de 2016, o governo Temer anunciou a sua proposta de reforma da previdência. Quando ouvimos essa palavra, reforma, nosso primeiro pensamento é: “que bom! Afinal, toda reforma é pra melhorar alguma coisa, não é mesmo?”. Mas não é esse o caso.

Seguindo o plano de jogar em nossas costas a conta da crise, o governo brasileiro quer que a gente morra de tanto trabalhar. E o pior, sem ter direito nem ao menos a uma aposentadoria digna. Tudo isso pra beneficiar a elite do país e estrangeira. Caso o povo deixe a reforma ser aprovada, teremos que trabalhar durante 49 anos para ter direito a uma aposentadoria integral.

Além disso, hoje o homem deve ter 65 anos e a mulher 60 anos para se aposentar por idade. Com a reforma, isso muda. Todas as pessoas, seja homem ou mulher, só poderiam se aposentar após os 65 anos. Essa regra ignora completamente o fato de que as mulheres vivem dupla jornada, trabalhando fora e dentro de casa, portanto nada mais justo do que uma aposentadoria mais cedo. Além disso, para se aposentar por idade hoje você precisa ter contribuído por 15 anos para o INSS. Se aprovada a reforma, a exigência sobe para 25 anos.

AS REGRAS PROPOSTAS POR TEMER

  • IDADE MÍNIMA 65 anos
  • CONTRIBUIÇÃO MÍNIMA 25 anos
  • PARA RECEBER TETO DO INSS 49 anos de contribuição
  • JÁ APOSENTADOS Nada muda
  • PASSARÃO POR REGRAS DE TRANSIÇÃO Homens com mais de 50 anos e mulheres com mais de 45 anos hoje
  • SERVIDORES PÚBLICOS E POLÍTICOS Terão as mesmas regras do INSS
  • PENSÃO POR MORTE Fica proibido o acúmulo de pensão e aposentadoria
  • MILITARES Terão um projeto de lei separado

TRABALHADOR É QUEM PERDE COM A REFORMA

Ilustração: Carteira de Trabalho

Um dos argumentos que sustentam a necessidade desta reforma é de que a longevidade do brasileiro aumentou. Ou seja, que os brasileiros estão morrendo mais velhos. No entanto, essa ideia ignora as profundas desigualdades sociais e regionais que existem no país. Em 19 municípios a expectativa de vida é de exatamente 65 anos. Em outras 63 cidades, é de 66. Ou seja, vive mais tempo e com qualidade de vida quem tem dinheiro e, portanto, quem não depende da previdência social. Dois terços do volume das aposentadorias são de salário mínimo, não são para milionários.

O povo pobre, que trabalha a vida inteira em empregos precários, muitas vezes sem carteira assinada, vive menos e pior. Dados do IBGE apontam que um jovem alagoano que tem 20 anos em 2016 viverá aproximadamente 69 anos. O estado tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país. É uma vida inteira de trabalho para desfrutar de quatro anos de descanso! O governo quer que a população trabalhe até o limite da capacidade. Um trabalhador braçal, que mora em uma região pobre, dificilmente vai conseguir chegar aos 65 trabalhando. Mas é isso o que pretende o governo: que o brasileiro morra sem se aposentar.

A PREVIDÊNCIA ESTÁ QUEBRADA?

Um dos principais argumentos pró-reforma é de que a Previdência está quebrada. A palavra rombo surge nos noticiários a todo momento. O que eles omitem à população é que o problema não está na arrecadação, mas no fato de que uma fatia do orçamento da Seguridade Social é constantemente desviado para outras finalidades.

A própria Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip) vem afirmando que o rombo, tão alardeado, não existe. A partir de 1994, na gestão FHC, o governo começou a desviar dinheiro das contribuições sociais. E o desvio não para. Em 2016, o desvio passou de 20% para 25%. Recentemente, o governo Temer aprovou o desvio de 30% do orçamento que seria para Seguridade Social (que inclui a previdência) para outras áreas. Aí, perguntamos: como a previdência pode estar no vermelho se o governo tira 30% dela pra gastar em outras áreas?

QUEM GANHA COM A REFORMA? OS FUNDOS DE PENSÃO PRIVADA

Lembra que falamos que a reforma da previdência tem por objetivo castigar os pobres e premiar a elite? Não era força de expressão. O discurso é de combate à crise, mas o objetivo é agradar os grandes fundos de pensão privada que atuam no país.

Quando a saúde é precária, se temos condições, entramos num plano de saúde. O mesmo vale pra educação, matriculamos nossos filhos em uma escola particular. Com a aposentadoria não é diferente. Quem pode está já procurando na iniciativa privada uma aposentadoria complementar.

Quer dizer, pagamos duas vezes. Com os impostos custeamos a saúde e educação. E com a contribuição previdenciária custeamos a aposentadoria. Mas ainda somos obrigados a arcar com a contratação de escola, plano de saúde e, agora, previdência, particulares.

De janeiro a outubro de 2016, as captações de clientes dos fundos de pensão no país subiram 21,2%. Um aumento de R$ 42,93 bilhões comparado aos primeiros dez meses de 2015. Em outubro de 2016, a captação foi 57% acima da registrada no mesmo mês em 2015, acumulando R$8,8 bilhões.

O secretário responsável pela coordenação da reforma, Marcelo Abi-Ramia Caetano, se reuniu apenas duas vezes com as centrais sindicais para discutir o assunto. Já com representantes de bancos e empresas de fundos privados — como JP Morgan, Santander, Itaú e XP investimentos —, conseguiu agendar cerca de 30 reuniões. Em meio à proposta da reforma, soa um tanto estranho tantos encontros assim com aqueles que serão os maiores beneficiários desta medida. Aí tem coisa!

HIPOCRISIA: OS DEFENSORES DA REFORMA SE APOSENTARAM CEDO E COM ALTAS CIFRAS

Foto do MICHEL TEMER fazendo beicinho

MICHEL TEMER, que encabeça a proposta como presidente da República, se aposentou com 55 anos e ganha mais de R$ 30 mil.

Foto do HENRIQUE MEIRELLES rindo

HENRIQUE MEIRELLES, Ministro da Fazenda e responsável por anunciar a reforma, se aposentou com 57 anos, recebendo do FleetBoston Bank US$ 750 mil anuais.

Foto do ELISEU PADILHA roendo a unha

Outro que advoga o fim da aposentadoria é o chefe da Casa Civil, ministro ELISEU PADILHA. Ele “pendurou as chuteiras” aos 53 anos, em 1999, com salário de R$ 19,3 mil pagos pela Câmara. Ele ainda recebe R$ 30,9 mil.

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